Por que fazer uma Pós-Graduação? – Revista GOL

Artigo publicado pela Revista GOL Linhas Aéreas Inteligentes, nº 164 de novembro 2015, fala sobre as vantagens de se fazer uma pós-graduação.

(Bruna Bopp)

Título: A Peça que faltava - ç

Fazer um curso de pós-graduação em uma área diferente daquela em que você se formou pode ser o caminho para realizar um sonho antigo, arejar a cabeça, dar um novo rumo à vida profissional ou se manter atualizado em um mundo em constante transformação.

Quantas pessoas você conhece que estão insatisfeitas com o trabalho? Ou que, apesar de gostarem do que fazem, sentem falta de sair da zona de conforto e explorar novas possibilidades? “As pessoas têm buscado cada vez mais atividades que dão prazer. Isso faz parte de um processo de fortalecimento da identidade individual, de se alinhar com sua própria verdade”, explica Lella Sá, coach especialista em trabalho com significado.

Diante dessa tendência, os cursos de pós-graduação deixaram de ter como objetivo único o aperfeiçoamento profissional. “Hoje há advogados aprendendo sobre gestão empresarial, publicitários buscando conhecimento de psicologia. O movimento por uma formação mais sofisticada cresceu e os cursos acompanharam essa demanda. Na década de 90, eles eram mais generalistas, hoje você encontra todo tipo de opção, de filosofia a inovação”, explica Marcelo Saraceni, presidente da Associação Brasileira das Instituições de Pós-Graduação, a ABIPG. Não à toa, é cada vez mais comum encontrar alunos com formação diferente da área estudada na sala de aula da pós. Segundo Saraceni, grande parte dos cerca de 100 mil cursos lato sensu existentes no Brasil – programas de especialização para quem já possui diploma de graduação – tem turmas heterogêneas.

O comissário de bordo Tony Cardoso serve de exemplo para essa tendência. Quando descobriu que existia uma pós-graduação sobre perfume, ele demorou para acreditar. “Sempre quis estudar o assunto, mas era preciso ser químico ou farmacêutico para se matricular”, diz. Tony cresceu em Belém, no Pará, formou-se em administração de empresas e trabalhou durante décadas no mercado de luxo da Europa. Há oito anos, faz parte da equipe de uma companhia aérea suíça. “Mesmo com tantas mudanças, a paixão por perfumes sempre me acompanhou. Aos 4 anos, eu passava horas no quintal sentindo o cheiro das folhas e hoje tenho uma coleção de quase 900 frascos em casa”, conta. Quarenta anos depois, ele acaba de se formar na pós A Cultura do Perfume, na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, e pensa em dar aulas sobre o tema. “Esperei muito para colocar em prática essa vontade, estou realizado”, diz Cardoso.

Não é exagero: sabe aquela sensação de bem-estar que surge com a prática de exercícios físicos? Quando a busca por conhecimento é prazerosa, a história é parecida. “As regiões cerebrais envolvidas com o prazer atuam no processamento dessas novas informações e afetam seu estado emocional”, explica a neurocientista Lia Bevilaqua, professora do Instituto do Cérebro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E, enquanto alguns se apaixonam pela endorfina e correm maratonas, há quem fique viciado em… estudar. “O aprendizado, se bem coordenado e sequencial, deixa registros físicos e químicos no cérebro. Se a pessoa se der conta de que está absorvendo conhecimento, a informação adquirida deixa marcas e ela pode se ‘viciar’ em aprender.”

Talvez seja esse o caso de Melissa Gomes, 36. “Adoro estudar. Já fiz cursos de cool hunting e história da arte. Para quem trabalha com criatividade, como eu, é importante olhar para fora e descobrir novas referências sempre”, diz a curitibana, formada em desenho industrial. Atualmente, ela atua como gestora da equipe de criação e desenvolvimento de produtos de marcas de calçados esportivos. Depois de completar uma pós-graduação em gestão de desenvolvimento de produto de moda, ela procurou um segundo curso, desta vez em restauro e conservação de pinturas de cavalete, no Templo da Arte, em São Paulo. “A primeira foi para o meu aperfeiçoamento profissional. A atual é a chance de usar meu tempo livre para relaxar e abrir a cabeça”, diz.

Imagem Ilustrativa: mulher coloca peça de quebra-cabeça para completar imagem de como ela se vê no futuro, com uma Pós-graduação

Quebra-cabeça

Em um mundo que não para de se transformar, a formação básica já não parece tão determinante na vida profissional como era antigamente. “A busca por uma visão ampliada tem sido cada vez mais importante. Ir atrás de competências que diferenciem o indivíduo, e que sejam complementares à bagagem que ele já carrega, se tornou essencial”, explica Ana Ligia Finamor, professora dos MBAs da Fundação Getúlio Vargas.

Foi pensando nisso que o campograndense Guilherme Sanches, 29, procurou uma pós-graduação em administração, no Insper. Formado em publicidade e propaganda, ele trabalhou durante anos em agências. Cansado da rotina estressante, decidiu mudar de área e conseguiu uma vaga no departamento de vendas de uma multinacional. “A necessidade de me aprofundar no universo administrativo surgiu no dia a dia. Nas reuniões com os clientes, eu apresentava propostas de vendas para CEOs e tinha dificuldade em entender a linguagem deles”, lembra.

O curso foi fundamental para que Guilherme passasse a dominar conceitos de economia e negócios e ainda ganhasse mais segurança na hora de lidar com os diretores. Ele ainda acredita que a formação interdisciplinar foi determinante para o sucesso na carreira, já que introduziu ao mundo corporativo conhecimentos adquiridos na formação em humanas. “Os jovens hoje não se encaixam em um trabalho em que cumprem apenas uma função. Eles pensam de maneira multidisciplinar e em como podem usar seus talentos a serviço de alguma coisa”, diz Gustavo Tanaka, empreendedor e autor do livro 11 dias de despertar – uma jornada de libertação do medo. Saraceni, da ABIPG, reforça: “As empresas passaram a ter estruturas mais horizontalizadas, com um relacionamento forte entre todos os departamentos. Hoje cada área precisa ter expertises das outras”.

Em alguns casos, a pós-graduação serve para legitimar e acrescentar conhecimento a uma escolha profissional que aconteceu primeiro na prática. Formada em hotelaria, a paulistana Bruna Aragon, 27, acabou seguindo pela área de vendas. Em 2006, quando o Brasil despontava como forte destino turístico mundial, o curso era a grande tendência do mercado. Mas, em pouco tempo, Bruna percebeu que a realidade da profissão era bem diferente do que a experiência passada na sala de aula. “Adorava o assunto, mas quando fui procurar emprego vi que a rotina era focada no operacional e não na gestão, a parte que me interessava”, lembra. Ainda na graduação, Bruna arranjou um emprego temporário como vendedora em uma loja de roupas – de onde saiu, oito anos depois, como consultora de franquias da marca. “Me identifiquei tanto que decidi seguir carreira na área de varejo”, diz. Há um ano, ela faz pós-graduação em gestão estratégica de vendas no Mackenzie e, em breve, deve assumir novas responsabilidades na empresa onde trabalha como consultora de vendas.

“O custo de uma pós-graduação ou de um MBA é alto, mas costuma ter como consequência direta a valorização profissional. É natural que a pessoa se torne capaz de assumir mais responsabilidades e seja reconhecida por isso financeiramente”, diz Guy Cliquet, um dos coordenadores do Insper.

Pós-graduação

Cartada final

Quando surge aquela vontade de começar tudo de novo e mudar por completo a situação profissional, não vale o desespero: a pós-graduação pode, sim, ser uma saída. Além de permitir uma especialização mais rápida do que a da graduação, ela ainda faz a ponte direta com o mercado. Foi o que aconteceu com a bióloga paulistana Paloma Velarde, 24, que trabalhava no laboratório de oceanografia da USP. “Para seguir na pesquisa, tão desvalorizada no Brasil, é preciso ser apaixonado pelo assunto e eu não tinha essa vocação”, lembra. Aos 22 anos, ela largou o emprego e fez um curso de artes plásticas na Escola Panamericana para desenvolver um de seus hobbies: desenhar. Aos poucos, percebeu que a atividade poderia virar profissão. “Fiquei na dúvida se valeria fazer uma nova graduação. Preferi a pós de design gráfico na FAAP, pelo contato com pessoas com mais experiência do que eu”, diz ela, que está no curso há nove meses.

Tal troca de experiências é outro grande atrativo oferecido pelos cursos de pós-graduação. “O networking e a convivência entre os estudantes são muito enriquecedores e acompanham a tendência do mercado, que exige que as pessoas ampliem seus repertórios”, explica Guy Cliquet. Agora, Paloma trabalha em uma agência de publicidade e deseja se tornar ilustradora. “Cheguei a pensar que tinha jogado fora quatro anos da minha vida por ter escolhido a faculdade errada. Mas hoje sei que, futuramente, posso usar o que aprendi na biologia marinha para criar meus desenhos.”

A jornalista Nathalia Ziemkiewicz, 29, também apostou na pós para mudar o rumo da sua carreira. Depois de trabalhar sete anos como repórter de revistas semanais, ela pediu demissão para se dedicar a um curso na área de educação sexual, tema que sempre lhe interessou. “Eu escrevia matérias de comportamento e notava que existia uma imensa demanda por informação sobre sexualidade”, diz. Nathalia se matriculou no curso na Unisal, em São Paulo – um dos poucos do país que não é voltado exclusivamente para pessoas formadas na área da saúde –, e criou o blog Pimentaria para falar sobre o assunto à sua maneira. “O processo de transição profissional não é fácil. A falta de dinheiro, de rotina e a insegurança são bem complicadas. A pós foi fundamental para que eu não desistisse”, lembra. Hoje, dois anos depois de ter largado o emprego, ela já consegue viver apenas do Pimentaria: faz palestras em colégios e universidades, incluindo a USP e a Unifesp, tem dois livros prontos e um piloto para um programa de TV. “É preciso coragem e conhecimento para conseguir viver do que te dá prazer”, finaliza.

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